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Canais de apoio psicológico são reforçados durante a pandemia

KÁTIA APPOLINÁRIO | 31/05/2020 | 06:00

Cuidar da saúde mental nunca foi tão importante neste momento de isolamento social. A busca por serviços de escuta ou mesmo por atendimento psicológico cresceu expressivamente durante a pandemia e, para suprir essa demanda, muitos canais tiveram que se adaptar. Em Jundiaí, por exemplo, foi criado no final de abril o ‘Chat de Apoio Emocional’ com o intuito de dar suporte psicológico à população nesse período.

Em quase 30 dias foram realizados 903 atendimentos, sendo que as queixas mais frequentes são relacionadas especialmente ao temor à contaminação e ao medo de perder pessoas queridas. A questão financeira e o desemprego também são motivos de aflição apresentados por alguns dos atendidos.

O acolhimento via chat é realizado por dois psicólogos fixos e outros 10 profissionais da saúde que auxiliam na ação. Eles também atendem a população via Disque 156, canal voltado para sanar dúvidas a respeito do coronavírus no município. No entanto, o atendimento ainda carece de pessoas para essa equipe, motivo pelo qual, as inscrições para voluntariado durante a pandemia ainda estão abertas no site da Prefeitura de Jundiaí.

TRABALHO DE ESCUTA
Quem também tem dedicado seu tempo à saúde mental das pessoas são os voluntários do Centro de Valorização da Vida (CVV), uma associação sem fins lucrativos voltada à prevenção ao suicídio por meio do atendimento telefônico, que ganhou ainda mais força durante o enfrentamento ao coronavírus. É o que conta a colaboradora veterana, Maria Bernadete Amaral Carneiro, de 60 anos, que há quase duas décadas atua no projeto. “As pessoas se sentem muito sozinhas e, na maioria das vezes, não têm com quem compartilhar seus anseios. O serviço de escuta tem o objetivo de não deixar o copo das emoções transbordar, o que é ainda mais importante neste momento de isolamento social em que todos estamos com nossos medos e incertezas à flor da pele”, pontua Bernadete.

O assistente administrativo, Fabio Kasemiro, de 27 anos, se uniu aos demais 35 voluntários há três meses. “Tem sido uma experiência maravilhosa poder disponibilizar o meu tempo para gerar aconchego a uma pessoa que está precisando de amparo. Pretendo continuar auxiliando mesmo após a pandemia”, reitera.

O CVV funciona 24 horas por dia e as ligações podem ser feitas gratuitamente através do número 188. Como o serviço é sigiloso não podem ser divulgados dados sobre o perfil dos atendidos, suas principais queixas ou mesmo a quantidade de atendimentos realizados, mas Bernadete alega que a escuta continua a todo vapor. “Mesmo tendo que nos adaptar a essa nova realidade, nosso trabalho está mais ativo do que nunca. Fizemos algumas adaptações ao atendimento. Os voluntários, por exemplo, ficam em salas isoladas durante seus turnos e se responsabilizam pela higienização dos respectivos postos de trabalho com álcool gel”, ressalta a voluntária.

ATENÇÃO PSICOSSOCIAL
O atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da cidade também foram adaptados. De acordo com o coordenador de saúde mental, álcool e outras drogas da Unidade de Gestão de Promoção da Saúde (UGPS), Alexandre Moreno Sandri, ainda que as consultas médicas e os acolhimentos de porta aberta tenham sido mantidos, o atendimento on-line se tornou uma forte opção. “Com a diminuição no fluxo de atendimentos presenciais, há maior foco nos atendimentos a distância. Nesse contexto, tem-se evitado, na medida do possível, o deslocamento de usuários idosos, ou em outras condições de risco já identificadas, aos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)”, explica.

Além disso, nesse período, algumas atividades tiveram que ser temporariamente suspensas, como as vivências em grupo, oficinas, mas os casos graves, como o de pacientes que necessitam de internação continuam ativos. Atualmente o município conta com dois Caps para adultos – CAPS II e CAPS III. Em cada um deles, aproximadamente 900 usuários passam por acompanhamento regular.

Para o coordenador, os pacientes necessitam de um cuidado extra durante esse período em que a saúde mental pode estar fragilizada. “O isolamento social é um fator que pode agravar a condição psíquica de alguns dos nossos usuários: a quebra da rotina, a permanência por um maior período de tempo dentro de casa, por vezes em relações que já são conflituosas, e a diminuição dos encontros e do contato afetivo podem ser fatores de risco”, alerta.

A psicóloga Kátia Puccineli, de 56 anos, recomenda a organização da rotina como uma forma de manter a saúde mental. “Se possível, evite o sedentarismo, use o tempo de forma criativa, evite o uso excessivo das redes sociais e não se contamine com más notícias. Tarefas simples como limpar a caixa de e-mail ou mesmo terminar um livro podem trazer calma e sensação de organização”, explica.

Além disso, ter uma perspectiva positiva sobre a situação também pode ajudar a passagem pelo isolamento social. “Este é um acontecimento carregado de aspectos simbólicos. A sociedade está passando por um momento de flexibilização, onde nossos hábitos estão sendo colocados à prova, um exemplo disso é a diminuição do consumo. Estamos nos desprendendo do que não precisamos e isso poderá ser uma característica dessa fase pós-pandêmica”, diz.

SERVIÇOS
Chat de Apoio Emocional: https://jundiai.sp.gov.br/coronavirus/
Centro de Valorização da Vida (188)
Centro de Apoio Psicossocial (4521-1132)
Psicóloga Débora Berger: deborabergerb@gmail.com
Psicóloga Kátia Puccinelli: https://katiapuccinelli.com.br/

 

Reações adversas serão percebidas neste momento

Ansiedade, medo e tristeza são sentimentos que podem aflorar durante o período de isolamento social. No entanto, a psicóloga e psicanalista Débora Berger, de 48 anos, alega que cada pessoa pode reagir de maneira singular aos atuais acontecimentos. “Isso se deve à condição psíquica/emocional prévia de cada indivíduo. Vemos de tudo. Desde um extremo medo paralisante até as negações completas do perigo”, explica.

A profissional destaca que neste momento é normal que as emoções se tornem ainda mais intensas. “Conforme os dias foram passando e as pessoas se ajeitando da forma possível em suas novas configurações, percebemos que os humores de alternam. Ficamos orgulhosos por realizar coisas antes impensadas, ficamos tristes e choramos a saudade pela distância dos amados.

Temos medo da doença, da economia, da morte. Vivemos na pele e na alma as vicissitudes de sermos humanos”, reflete.
No entanto, esses sentimentos às vezes desencadeiam um quadro de ansiedade, que pode até mesmo se confundir com a doença. “Temos que ficar atentos às crianças, aos idosos e também aos medos que podem surgir, inclusive dificultando o processo de saída dessa quarentena e retorno às atividades da vida. Essa é uma dificuldade que tem sido relatada por nossos colegas fora do Brasil, já em outro momento da luta contra essa pandemia”, ressalta.

Ela lembra que o distanciamento dos amigos e a proximidade imposta da família nuclear tem gerado situações difíceis, porém enriquecedoras. “Os conflitos se acentuam e muitos têm que lidar com questões das relações que na vida cotidiana acabam ficando de lado, ignoradas em um acordo tácito que muitas vezes só gera imobilidade. Interessante pensar como a imposição da não circulação, acabe por gerar tamanho movimento. Exacerbam-se os medos, mas também proliferam as parcerias criativas e a generosidade”, diz a psicóloga .

Ela enfatiza que dúvidas, questionamentos e as mudanças de humor até um certo ponto fazem parte de uma reação normal de pessoas que pensam e que estão atentas à realidade. O que é preocupante é quando há certezas absolutas de quem continua insistindo de que tem a solução mágica ou a resposta correta.

“Temos que estar atentos ao nível de ansiedade e as reações mais fortes, de tristeza, medo, desesperança, assim como as situações de maior isolamento e reclusão, não dentro de casa, mas dentro de si mesmo. Importante contar com a família e com amigos, e quando isso não dá conta, procurar ajuda profissional”, orienta.

Para reduzir a ansiedade e o mal-estar causado pelo isolamento social, Débora dá algumas orientações, entre elas, cuidar da alimentação, praticar exercícios físicos, estabelecer uma rotina, manter o contato com família e amigos, aproveitar o tempo livre para descobrir novos talentos ou fazer coisas que antes não cabiam na dinâmica do dia a dia. “O medo da doença, a ameaça de morte invadiu nossas casas e mentes e fomos obrigados a rever nossas certezas.”


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