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Estresse no trabalho e esgotamento podem levar à Síndrome de Burnout

COLABORAÇÃO DE MARIANA CHECONI | 09/06/2019 | 05:01

Sensação de esgotamento físico e mental, fortes dores de cabeça, irritabilidade, alterações de humor, dificuldade de concentração, distúrbios do sono e indisposição, sintomas que são facilmente confundidos com ansiedade e depressão. Contudo, pode ser um problema que poucas pessoas sabem que existe: a Síndrome de Burnout e que já atinge 30% dos trabalhadores no Brasil.

Burnout, do inglês burn out, pode ser traduzido como a sensação de estar sendo queimado. A síndrome é um distúrbio psíquico de caráter depressivo, caracterizada pelo estado de esgotamento físico e mental relacionado ao trabalho. Recentemente reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como doença, a síndrome atinge principalmente trabalhadores das áreas da saúde, educação, assistência social, recursos humanos, agentes penitenciários, bombeiros, policiais e pessoas que enfrentam dupla jornada.

Segundo Vanessa de Souza Neto, psiquiatra do Hospital São Vicente, essa síndrome é resultante do estresse crônico no local de trabalho. “É caracterizada como uma síndrome ocupacional, que pode acarretar em sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia e aumento do distanciamento mental do próprio trabalho. Isso faz com que a pessoa tenha uma diminuição na produtividade e perca a vontade de ir para o trabalho”, afirma.

Foi o que aconteceu com Damião Silva, 32 anos. Coordenador de projetos de educação da área da saúde na Universidade de São Paulo (USP), conta que os primeiros sintomas surgiram em 2016. “Nessa época, eu coordenava uma equipe gigante de profissionais da saúde. Entre psicólogos, pedagogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos e ainda a profissionais de educação especial de todo o estado de São Paulo, eu tinha uma equipe de quase 200 pessoas. Não dormia direito, vivia cansado, estressado. Mas achava que tinha que dar conta. Trabalhava de domingo a domingo e cheguei a ter jornadas de 17 horas por dia”, relata.

Damião conta que lidava com todo tipo de pessoas todos os dias. “Eu dava orientações e atendimentos para pais e professores de domingo a domingo. Lidava com todas as esferas sociais e classes. Além disso, eu viajava muito. Em 2016, a equipe que me auxiliava sofreu um corte. Precisava de quatro pessoas comigo e só tinha uma. Isso fez com que meu trabalho aumentasse ainda mais”, relembra. A partir desse momento o coordenador começou a sofrer com crises de hipertensão. “Em uma reunião minha pressão chegou a 24 por 17. Mesmo assim eu não dei muita importância, coloquei na cabeça que era só estresse e ia passar. Não conseguia desfocar do trabalho”, conta.

Em 2018, Damião tirou férias, mas mesmo com os dias fora não conseguiu descansar. Sua chefe era muito exigente. Quando voltou, sofreu outra crise de hipertensão e só então foi à procura de um psiquiatra. “Eu tinha muito preconceito. Achava que estava bem, que era só estresse. Mas não é. Burnout é algo que te deixa tão esgotado que não é só descansar que passa, como muitos acreditam”, explica. A psiquiatra o afastou por 15 dias, que não foram suficientes pois, após esse período, veio a pior crise. “No dia que eu voltei, sofri um acidente de trabalho. Voltando do almoço, rolei escada abaixo e quebrei o pé por conta da pressão alta e o uso de medicamentos. Foi a gota d’água. Em setembro de 2018 fui afastado por acidente de trabalho, Burnout e outros problemas que desenvolvi por conta da síndrome. Desde então estou afastado”, relata.

Tratamento
De acordo com Vanessa, o tratamento consiste principalmente em psicoterapia. “A terapia serve para lidar com os sentimentos negativos envolvidos com as questões do trabalho. Em alguns casos existe a necessidade de uso de remédios ansiolíticos ou antidepressivos”, explica. Casos extremos como o de Damião necessitam de um tratamento multiprofissional. Ele passa com psiquiatra, psicólogo, neurologista, nutricionista e educador físico para conseguir controlar os sintomas. Hoje, sente que o progresso ocorre aos poucos, mas ainda não se sente bem em voltar ao trabalho. “Jamais imaginaria que trabalhar com algo que a gente ame tanto fizesse com que ficássemos doentes de tal forma. Ainda estou bem perdido em relação a volta ao mercado de trabalho.  Preciso ressignificar tudo e dar um novo sentindo ao que quero”, afirma.

Jovens também sofrem

Burnout não atinge só pessoas que trabalham há muito tempo. Os jovens já começaram a apresentar os sintomas. Mariana Fernandes, 20 anos, foi diagnosticada com a síndrome enquanto fazia estágio. A jovem conta que não sentia mais prazer em ir para o trabalho, coisa que no começo a animava bastante. “Eu me sentia esgotada. Demorei para perceber que era Burnout. Só com a ajuda da minha psicóloga. Você imagina que é qualquer coisa, não algo relacionado a um trabalho que te faça tão bem. Eu fiquei sobrecarregada. Fazia serviços muito além do que um estagiário tem que fazer. Juntando a pressão do trabalho com a pressão da faculdade, resultou nisso.”

Mariana faz terapia e conta que a ajuda de um profissional é fundamental. “O meu caso não é dos mais extremos, por conta disso está controlado. O importante é identificar e não confundir os sintomas com alguma outra doença. É essencial entender que não se trata só de um estresse e procurar ajuda. Com terapia eu entendi melhor a síndrome e sei como conviver com ela”, relata.

Damião Silva, 32 anos, está afastado há um ano do trabalho por conta do profundo esgotamento físico e emocional


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