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Um novo olhar para a doença do século 21

GRAZIELLY COELHO | 30/06/2019 | 05:00

Perguntas repetitivas, desatenção e esquecimento rápido das ações do dia a dia foram os primeiros indícios que Lourdes Amaral, de 91 anos, apresentou no início do seu diagnóstico de Alzheimer. “Ela perguntava muitas vezes a mesma coisa, comia duas vezes porque esquecia que já havia comido antes”, explica a neta Beatriz Bana, de 21 anos.

A antiga costureira começou a apresentar os sintomas da doença há mais ou menos cinco anos, logo após o falecimento do seu marido Anuar Bana, que também enfrentou uma doença que afeta a vida das células do cérebro, o Parkinson.

Para Luiza, irmã gêmea de Beatriz, a avó desenvolveu a doença como forma de drenar e sobreviver ao sofrimento causado pela morte do companheiro. “Desde que meu avô ficou doente, ela ficou muito deprimida. Ele morreu em maio de 2014 e, na semana seguinte, minha avó teve uma consulta médica e foi diagnosticada com a doença. Meu avós passaram 60 anos juntos, então foi uma perda muito grande pra ela.”

A situação começou a se complicar quando dona Lourdes quebrou o pé e precisou passar por uma cirurgia onde teve que ficar três meses sem andar. Após isso, com o agravamento da doença, o quadro ficou ainda mais perigoso para a idosa e desafiador para a família. Ela começou a “comer” comida crua ou tentar tomar algum produto de limpeza, porque ela não sabia mais diferenciar os rótulos.
Samira Bana é mãe das gêmeas e filha de dona Lourdes. Há mais de 14 anos a psicóloga enfrenta uma luta pela saúde de seus pais. Além da Síndrome de Parkinson, Anuar foi diagnosticado com câncer na bexiga, pouco antes de falecer. Foi durante esse período que Lourdes desenvolveu uma depressão que mais tarde deu lugar ao Alzheimer.

Após inúmeras tentativas de cuidados, a decisão da família foi colocá-la em uma clínica especializada. “Tentamos muitos tratamentos. Clínica de meio período e enfermeira em casa, mas ambos não deram certo. Então, eu e minhas filhas começamos a procurar um novo lugar onde ela pudesse ficar e se sentir à vontade”.

Para a família, a parte mais difícil é lidar com os avanços da doença. “Ela não tem memórias, não articula mais e fala coisas bem desconexas e sem sentido. Ela está cada vez mais distante, mas consegue nos reconhecer quando vamos visitá-las. É um sofrimento saber o futuro da situação. Costumo dizer que o doente de Alzheimer quer esquecer aquilo que não pode ser lembrado”, declara a psicóloga. Foi no amor e na paciência que mãe e filhas encontraram forças nessa batalha contra o esquecimento.

Elas afirmam que terem enfrentado os problemas de saúde do avô, anos antes, serviu como preparo para o que vivem hoje. Além disso, adotar um olhar carinhoso para a doença de dona Lourdes foi fundamental para sobreviver em meio ao sofrimento. “Diferente de outros doentes de Alzheimer, ela se tornou uma pessoa muito carinhosa e brincalhona. Também sempre concordamos com ela quando ela tenta falar alguma coisa mesmo que não faça sentido, damos gargalhadas juntas e não ficamos perguntando coisas do passado para não deixá-la triste”, conta Beatriz.

No Brasil, existem cerca de 1,2 milhões de pessoas que sofrem de Alzheimer, segundo informações da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). Trata-se de uma doença progressiva e silenciosa, mas capaz de comprometer o comportamento e as vivências simples do dia a dia atingindo, principalmente, as pessoas mais velhas. É caracterizada pela perda progressiva das funções cognitivas, como memória, atenção e linguagem, devido à morte de células cerebrais.

De acordo com a neurologista do Hospital das Clínicas, Sonia Brucki, a melhor maneira de continuar proporcionando um estilo de vida saudável para os portadores da doença é não interromper a rotina habitual. “Para manter e garantir uma qualidade de vida deve-se manter as atividades rotineiras e sociais. Não isolar a pessoa que está doente e continuar estimulando as atividades cognitivas, como ler, escrever, participar de discussões, praticar atividades físicas e atividades sociais, pois ficar sozinho traz um enorme prejuízo, além de manter uma boa alimentação. Todas essas atividades garantem, de forma geral, uma vida mais saudável”, revela a especialista.

Assim como no caso de Lourdes, é muito comum que doentes de Alzheimer tenham, paralelamente, casos de depressão, como explica a neurologista. “As pessoas devem prestar atenção se estão tendo mais dificuldades em realizar atividades do dia a dia. Nem sempre significa Alzheimer, pode significar depressão, problemas na tireóide, mas é muito importante estar atento às alterações cognitivas, como se esquecer muito facilmente das coisas.”

Além disso, Sonia aponta para a existência de novos estudos e avanços nas técnicas de tratamento que procuram encontrar maneiras de retardar a demência, mas que ainda não possuem nenhuma eficiência comprovada.

Na IC-Unicamp, em Campinas, o pesquisador Guilherme Folego desenvolveu uma nova técnica para ajuda a refinar o diagnóstico do Alzheimer. Já em Jundiaí, uma nova forma de tratamento para o Alzheimer está disponível no SUS. O remédio rivastigmina, já disponibilizado em comprimido e solução oral, agora também é encontrado em forma de adesivo transdérmico.


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