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Engenheiro transforma viagens em histórias

| 18/05/2014 | 17:16

Marcos Hungria nasceu em Piracicaba sem nunca ter morado lá. Se formou em Engenharia Agrônoma sem que quisesse atuar na profissão.  Mora em Jundiaí, mas vive mesmo é viajando. De aeroporto em aeroporto já passou por 42 países. Sua mais recente experiência foi no Irã, onde esteve por cerca de 15 dias.

As aulas de inglês, que ministra em sua casa, se tornaram um prazer e fonte de renda para colocar a mochila nas costas e pegar a estrada. O próximo destino já tem data e local: 5 de junho, Japão. Enquanto se prepara para partir, Marcos revela qual é o barato de viajar como mochileiro, quais países ainda deseja conhecer, além das impagáveis histórias que ele reuniu no livro: “Sede de Estrada – Memórias de um mochileiro e suas aventuras pelo Mundo”.

Jornal de Jundiaí – De onde vem este seu sobrenome?
Marcos Hungria –
Na verdade, o sobrenome da minha família é Hoffbauer. Há muito tempo, três irmãos da Hungria com o nome de Hoffbauer chegaram ao Brasil, mas por serem desertores do Exército, na época do Império Austro Húngaro, ao chegarem aqui foram obrigados a mudar o sobrenome. Até hoje, a cada quatro anos, a família se reúne.

JJ – A sua última aventura viajando foi para o Irã. Por que este país?
MH –
Desde que me interessei por viagem e passei a ler sobre o assunto, os países exóticos sempre foram os que mais me despertaram a curiosidade. Quando eu vi as fotos de Isfahan, enlouqueci. Há mais ou menos três anos eu planejei ir para o Irã, mas estourou a Revolução Verde e acabei indo para Síria e Jordânia. Com a mudança de governo do Irã, as coisas ficaram mais flexíveis naquele país e o turismo aumentou muito, a ponto de os hotéis terem lotação máxima.

Por acreditarem que há terrorismo no Irã, os turistas brasileiros ainda são minoria. Muitos dos meus amigos me perguntaram se o Irã é violento, se não tem atentados, mas o país não vive mais esta realidade. As pessoas confundem as culturas a ponto de acreditarem que a burca (veste feminina que cobre todo o corpo da mulher do Afeganistão e do Paquistão, usada em áreas próximas à fronteira) e o hijab (véu usado pelas mulheres em celebrações religiosas de sexta-feira, o dia sagrado dos muçulmanos) são as mesmas coisas.

JJ – Qual o roteiro que você percorreu nesta viagem ao Irã?
MH –
 O meu roteiro previa ficar em Tehran apenas um dia, seguindo de trem para Yazd (500 quilômetros de Teerã) e incluindo Shiraz, para onde fomos de táxi, já que o transporte custou apenas US$ 50. Na verdade, esta viagem eu fiz com um belga que eu conheci durante uma outra viagem. Porém, o mais impressionante no Irã é a arquitetura, mesquitas, mosaicos, arabescos. Tudo muito colorido. Além disso, a população é muito hospitaleira, além de ter um jeito bem específico de se vestir.

Quando eu cheguei  ao Aeroporto Internacional de Teerã, a  30 quilômetros da cidade, pelo guia de mochileiro a dica era seguir de ônibus, o que eu não vi. Ao mesmo tempo, taxista não faltava para querer te levar ao seu destino. Neste momento eu avistei duas pessoas próximas à saída do aeroporto e foi com elas que consegui minha primeira carona até o metrô. Lá, fizemos amizade com outros dois iranianos com quem consegui alimentação. Então, são coisas que não acontecem em países da Europa.

JJ – Qual a finalidade das suas viagens?
MH –
É conhecimento e interação com pessoas de outros países. Para as crianças, por exemplo, sempre costumo levar bexigas. Eu, quando viajo, gosto de me misturar à população. Essa é a vantagem de conhecer um país como mochileiro. Quando o turismo chega com uma excursão, o roteiro já está pré-estabelecido.

JJ – Você chegou a se formar em Engenharia pela  Universidade de São Paulo (USP). Por que não desistiu do curso antes?
MH –
Eu ensaiei parar quando estava cursando o segundo ano, mas por ser uma faculdade pública, achei que valeria a pena concluir, até porque não sabia o que fazer na época. Mesmo assim atuei como engenheiro por três anos e cheguei a ser sócio de uma casa lotérica, além dos bicos. Mas foi como professor de inglês que realmente me identifiquei, é o que eu gosto de fazer.

JJ – Como você define um mochileiro?
MH –
O mochileiro é um viajante independente, que gosta de estar aberto para o contato com todas as pessoas e situações locais. Além disso, um mochileiro gosta de interagir com outros viajantes. Embora eu tenha condições de ficar em hotéis, eu prefiro me hospedar em albergue, em quarto conjugado, onde existe a troca entre pessoas que vêm dos mais diferentes locais do mundo. Eu já viajei muito com pessoas que conheci em albergues, trocando informações e compartilhando o mesmo roteiro. Além disso, os mochileiros têm as mesmas filosofias.

JJ – Existe desvantagem de ser um mochileiro?
MH –
Sim, principalmente quando você se vê uma situação embaraçosa. Ainda assim, se não for nada muito grave é possível tirar vantagem. Quando eu fui para Israel e Egito, em 1991, não existia internet e as viagens aconteciam em outras condições. Para os judeus, o feriado é no sábado, quando ninguém trabalha.

Então, nestes dias, o café da manhã tinha que ser reforçado e eu já tratava de providenciar a marmita, já que os passeios são feitos com caronas. Se você é um viajante comum, os passeios são feitos confortavelmente de ônibus. Em um desses sábados, eu fui para a beira da estrada para tentar carona. Passou um taxista palestino, com um bigode enorme que me ofereceu carona. No meio do caminho, ele quis me seduzir. Eu fiz ele parar o carro na hora.

JJ – Hoje em dia o turismo evoluiu muito no mundo. Isso tem facilitado a vida de um mochileiro como você?
MH – 
Com certeza. Quando eu comecei a viajar, em 1986, o transporte que usava era ônibus, independentemente da distância, já que as passagens de avião eram muito caras. Hoje, é muito fácil. Ainda mais com as facilidades da internet, é muito fácil conseguir passagens promocionais e simplesmente conhecer o mundo.

JJ – Qual o critério que você usa para escolher os lugares para viajar?
MH –
Eu gosto de lugares exóticos, onde sei que vou encontrar uma cultura atípica. Os Estados Unidos, por exemplo, eu fui conhecer somente no ano passado, ainda porque minha esposa insistiu. Em compensação eu já conheço a Índia, o Nepal, a Tailândia, o Vietnã. Nos EUA nada te choca mais. É um país que está na TV e nos cinemas constantemente. Claro que existem parques lindos americanos que eu quero conhecer, mas há países muito mais atraentes quanto à sua cultura.

JJ – Qual o lugar mais inesquecível que você visitou?
MH –
O lugar mais louco que eu já estive foi a Índia, porque é uma explosão de cores e religiões. Claro que tem o lado negativo: a sujeira e a pobreza. Ainda para quem busca se surpreender, o Nepal.

JJ – Sua próxima viagem já tem destino definido?
MH –
No próximo dia 05 de junho estarei embarcando para o Japão, um país que sempre tive vontade de conhecer, mas por conta do alto custo da passagem e da hospedagem tive que adiar. Agora, surgiu uma passagem promocional e eu nem pestanejei.

JJ – Tem algum lugar que você esteve e não recomenda?
MH –
Todos os lugares em que eu estive recomendo que as pessoas conheçam. O gosto é muito particular.

JJ – Qual é o lugar que você sonha conhecer?
MH –
Ainda nesta linha de países exóticos, o Tibet. Já entre os lugares mais modernos, gostaria de conhecer a Austrália, Nova Zelândia, o Canadá. De qualquer forma, estes lugares mais fáceis eu deixo por último, enquanto que os mais difíceis têm que aproveitar enquanto estamos com saúde. Um sonho que tenho é pegar a estrada que corta a região montanhosa de Karakoram, entre a China, a Índia e o Paquistão.

JJ – O seu livro, “Sede de Estrada – Memórias de um mochileiro e suas aventuras pelo mundo”, serve de roteiro para quem pretende se tornar um mochileiro?
MH –
Considero mais um livro para desmistificar a imagem dos mochileiros, que nada mais são do que apaixonados pelas trocas de experiências culturais, que encontram pessoas que, mesmo morando em países com culturas distintas, mesmo sem me conhecerem pessoalmente, me hospedaram em suas casas e foram ao meu encontro com o intuito de me levarem a vivenciar mais profundamente todos os aspectos das cidades onde vivem.

JJ – Para você viajar é?
MH –
É me realizar.


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