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Rússia, China e Índia lideram disputa pela projeção geopolítica da vacina

As três potências, que integram o grupo Brics com Brasil e África do Sul, têm feito expansão de sua influência a partir da oferta de imunizantes


Reuters/Michael Weber/Imago Imagens/Direitos reservados
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Crédito: Reuters/Michael Weber/Imago Imagens/Direitos reservados
Enquanto EUA e Europa tentam imunizar suas populações mais rapidamente do que cresce a taxa de mutações do novo coronavírus, Rússia, China e Índia apostam na projeção geopolítica da vacina.
 
As três potências, que integram o moribundo grupo Brics com Brasil e África do Sul, têm feito movimentos de expansão de sua influência a partir da oferta de imunizantes, em especial a países em desenvolvimento.
 
Os russos tiveram uma semana de boas notícias, com sua contestada Sputnik V sendo chancelada pela comunidade científica a partir da publicação de seus dados preliminares de fase 3 na prestigiosa revista britânica The Lancet.
 
Isso abriu as portas para que a chanceler alemã, Angela Merkel, dissesse que se o imunizante fosse aprovado para uso na Europa, ela ajudaria Vladimir Putin a fazê-lo na Alemanha --resolvendo um dos gargalos da Sputnik V.
 
Além disso, a aprovação para uso emergencial e fabricação no Brasil avançou consideravelmente. Nesta quarta-feira (3), México e Nicarágua elevaram para 18 os países que já deram aval para a vacina, 6 deles na América Latina.
 
Para Putin, o prestígio é peça central, ainda mais no momento em que a pressão ocidental acerca da prisão do opositor Alexei Navalni cresce exponencialmente.
 
De quebra, alguns negócios típicos dos russos podem avançar ao mesmo tempo.
 
Na Argentina, que vacinou 0,88% de sua população desde a virada do ano com a Sputnik V, o embaixador da Rússia ofertou, segundo relatos, a venda de caças Su-30 ou MiG-29 para a Força Aérea local, que voa em estado miserável.
 
Na mão inversa, compradores recente de caças russos como Egito e Argélia usaram os canais azeitados para receber o fármaco de Moscou.
 
Na quarta, desembarcaram na África do Sul 1 milhão de doses da vacina indiana Covishield, a versão sob licença do fármaco da AstraZeneca/Universidade de Oxford.
 
Embora ela seja entregue pelo consórcio da Organização Mundial da Saúde Covax, que ajuda países mais pobres, é uma bandeira fincada pelo maior produtor de vacinas do mundo no continente mais desprezado pelos fabricantes.
 
Com isso, Nova Déli entra na disputa com o maior ator externo na África, Pequim.
 
O presidente Xi Jinping já prometeu ajudar 38 países com dificuldades na pandemia, com foco no continente, para o qual destinou US$ 2 bilhões para imunizantes.
 
A África do Sul, onde uma nova variante mais transmissível do Sars-CoV-2 assusta cientistas, encomendou 12 milhões de doses ao consórcio.
 
Vai precisar de mais: isso supre menos de 10% de sua população, lembrando sempre que são vacinas que necessitam de duas inoculações.
 
Segundo a União Africana, os países da região já reservaram 400 milhões de doses na Índia, ante 270 milhões de farmacêuticas ocidentais. O Covax deverá entregar 700 milhões, de diversos produtores.
 
Também nesta quarta a China aplicou um golpe contra os indianos, rivais econômicos com quem quase foram às vias de fato em uma escaramuça fronteiriça em 2020.
 
Pequim anunciou a entrega de lotes doados de vacinas chinesas para o Paquistão, seu aliado e maior inimigo da Índia, que já era cliente da estatal Sinopharm.
 
As atitudes desses colegas de Brics contrastam com a estratégia de países ricos, de assegurar para si o maior número de doses possível.
 
Há lógica geopolítica também: eles precisam conter a pandemia para reativar fluxos econômicos e manter estabilidade social, tão importantes quanto influência externa.
 
Segundo o monitor de contratos para entrega de vacinas da agência Bloomberg, que conta 110 acordos oficiais, nada menos do que 40% dos 8,57 bilhões de doses negociadas estão nas mãos de EUA, União Europeia, Reino Unido, Japão e Canadá, que somam 13% da população mundial.
 
Os canadenses reservaram uma cobertura vacinal três vezes maior do que a necessária.
 
Os dados são só referências. Há vacinas com problemas crescentes de aceitação, inclusive a campeã de contratos (3 bi de doses), a da AstraZeneca/Universidade de Oxford.
 
Além isso, não há informações confiáveis acerca de quantas vacinas estarão disponíveis para China e Índia, os dois países mais populosos do mundo, com 1,44 bilhão e 1,38 bilhão, respectivamente.
 
A Índia quer vacinar 300 milhões até agosto. Até aqui, só inoculou 0,29% da população.
 
Mas o país, que produz 60% das vacinas do mundo, será uma grande fábrica de imunizantes ocidentais vendidos para terceiros, também.
 
Já a China, que usa três de suas vacinas no programa emergencial desde julho passado, também está empenhada em parcerias externas.
 
Um dos casos mais conhecidos é o da Coronavac, feita em parceria com o Butantan e cuja disponibilidade forçou o até então negacionista Jair Bolsonaro a adotá-la.
 
Esses são efeitos secundários dessa disputa geopolítica: sob risco de ficar sem insumos chineses, Bolsonaro mudou sua postura crítica à ditadura chinesa e até deve aceitar a presença da Huawei como fornecedora de redes 5G.
 
Mas tanto no caso chinês como no indiano, há considerações de política interna a fazer, como o episódio em que Nova Déli segurou uma carga de 2 milhões de doses para o Brasil da vacina de Oxford no começo de sua campanha.
 
Outro ponto é de imagem: a China controlou a pandemia de forma eficaz, antes da vacina, enquanto os EUA caíram no caos e lideram o ranking da tragédia. Mas os americanos estão vacinando em alta velocidade relativa: 10% dos moradores já receberam ao menos uma dose, e 2%, duas. A China, até por ser quatro vezes mais populosa, só vacinou 1,7% das pessoas.

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