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Taleban chega a 70 km de Cabul, e moradores se preparam para invasão

O grupo fundamentalista islâmico, tomou cinco novas capitais provinciais nesta sexta


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Porta-vozes do Taleban narram ofensiva militar para tomar o Afeganistão
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O senso de inevitabilidade da batalha por Cabul tomou conta dos moradores da capital afegã após as notícias de que o Taleban está a meros 70 km da cidade.

O grupo fundamentalista islâmico, que comanda uma guerra relâmpago avassaladora por todo o território do país, tomou cinco novas capitais provinciais nesta sexta (13).

Ela ocorreu após a aceleração da retirada das forças americanas que passaram duas décadas no país, marcada para ser finalizada no dia 31 mas que, na prática, já ocorreram.

Uma delas é a pequena Pul-i-Alam, a mais próxima da capital até aqui entre as 17 conquistas em apenas uma semana -a ofensiva começou no domingo retrasado, e as resistências começaram a cair na sexta (6). Há 34 províncias no país, as sob controle governamental sendo de pequeno porte.

"Minha família é de Logar [província da qual a cidade é capital] e nos avisou por volta das 12h [4h30 em Brasília] que estava tudo perdido", afirmou por mensagem o jornalista Ali Ahmed, produtor freelance da TV cabulita Tolo.

Ele relata que os cabulitas estão vivendo um misto de pânico e resignação com o avanço. Famílias têm comprado mais mantimentos e água, temendo dias de combate.

"Não temos para onde ir e, ficando aqui, talvez seja mais seguro. Sempre pode haver algum tipo de acordo para não atacar civis", afirmou.

Com 41 anos, ele era adolescente quando o Taleban chegou ao poder em 1996 e instituiu um califado moldado nos regimes islâmicos medievais. Repressão às mulheres, leis draconianas e execuções públicas no estádio da capital eram norma.

Ahmed saudou a invasão americana, que visava punir o Taleban por ter hospedado a rede Al Qaeda de seu aliado Osama bin Laden e permitido que ela lançasse os ataques terroristas do 11 de Setembro, em 2001.

"O problema foi o que veio depois. Corrupção, governos ilegítimos. Não deu certo e agora a gente pode perder tudo o que construiu nesses 20 anos", disse. Ele ainda busca meios de trazer sua família do interior de Logar, mas só há uma estrada ligando a província à capital e o jornalista não tem coragem de tomá-la.

Concorda com o diagnóstico dele Salem, funcionário do Ministério das Relações Exteriores. Ele diz que os cabulitas consideram "uma vergonha" o fechamento de embaixadas anunciado pela Noruega, Finlândia e Dinamarca nesta sexta, assim como a evacuação de parte do pessoal das representações americana e britânica.

"Nós teremos de ficar para trás. Ninguém sabe o que vai acontecer", diz. Como ele mesmo havia lembrado em uma conversa anterior, o massacre de funcionários públicos considerados colaboracionistas pelo Taleban em Spin Boldak é um sinal amarelo.

A ofensiva taleban colheu um prêmio ainda mais importante, estrategicamente, também nesta sexta. A cidade de Lashkar Gah, onde as forças especiais do Exército resistiam de forma dura aos adversários, se rendeu.

Com isso, está completa a tomada da vital província de Helmand, no sudoeste do país, que concentra os campos de papoula usados para fornecer ópio a produtores de heroína mundo afora.

Os Estados Unidos consideram que 60% do orçamento anual de até US$ 1,5 bilhão do Taleban são bancados pela droga, embora alguns analistas achem o número exagerado e o coloquem o percentual em torno de 20%.

Seja como for, a tomada consolida a conquista do sul-sudoeste do país, deixada para depois do controle de quase todo o norte, área historicamente mais refratária aos talebans por motivos étnicos.

Eles são pashtuns, grupo majoritário no Afeganistão que se espalha por todo o país, mas que é mais concentrado ao sul, enquanto a porção setentrional é dominada por tadjiques e uzbeques que falam dari (persa).

Agora, o governo central de Ashraf Ghani só controla o corredor Cabul-Jalalabad e a importante cidade de Mazar-i-Sharif, que está totalmente cercada ao norte. Apesar de ter desmentido o boato de que um dos vice-presidentes do país havia fugido, poucos acreditam em sua capacidade de coesão.

Enquanto o cerco aumenta, os 3.000 soldados americanos que procederão a evacuação parcial da embaixada em Cabul devem começar a chegar neste sábado à cidade.

Segundo jornais americanos, haverá um esforço para que a saída seja ordeira e não lembre a fuga desabalada de diplomatas do país de Saigon, em 1975.

A comparação já havia sido rejeitada pelo presidente Joe Biden em junho. "Não haverá circunstância na qual você verá pessoas sendo retiradas do teto da embaixada dos EUA", afirmou, remetendo à clássica foto em que uma precária escada levava a um helicóptero salvador no Vietnã.

O chefe do Estado-Maior americano, general Mark Milley, disse na ocasião: "Eu posso estar errado, quem sabe, você não pode prever o futuro, mas não vejo Saigon-1975 no Afeganistão". O célere avanço taleban testará sua convicção.


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