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Sistema Cantareira entra em alerta e há projeção para escassez de água em 2022

O sistema que abastece a capital paulista está com 39% da capacidade total do reservatório


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Seca nos reservatórios
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O sistema Cantareira, que abastece a capital paulista e cidades da Grande São Paulo, entrou em estado de alerta e está com 39% da capacidade total do reservatório. Para ser considerado em nível normal, o volume deveria estar em pelo menos 60%.

O estado de alerta é quando o nível do reservatório oscila entre 30% e 40%. Com queda diária nos índices, a marca foi atingida no último dia 10.

Em uma apresentação virtual na última terça-feira (17), o analista de sistemas da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), Emerson Martins Moreira, afirmou que o atual estado de escassez hídrica começou no final de 2019 e início de 2020. E, levando em conta comparações com anos anteriores e o déficit da média de chuvas, o Canteira pode chegar a menos de 20% em julho do ano que vem.

"Se não vierem chuvas, a gente deve ter problemas no futuro", afirmou Moreira durante o evento "Desafios para a Segurança Hídrica na Região Metropolitana de São Paulo", promovido pelo Iea-USP (Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo) -a reportagem teve acesso ao vídeo do evento.

Em entrevista à reportagem, o presidente da companhia, Benedito Braga, afirma que esta foi apenas um estudo de cenário e não trabalha com essa previsão.

"Não é a previsão da Sabesp [20% em julho de 2022]. A companhia entende que não vai ter problemas até o final deste ano e vai avaliar o próximo ano entre novembro e dezembro", disse.

O sistema Cantareira é responsável por abastecer 7,2 milhões de consumidores por dia na região metropolitana de São Paulo.

A afirmação de Braga é refutada por especialistas, entre eles Pedro Luis Côrtes, professor do programa de pós-graduação em Ciência Ambiental do Iee (Instituto de Energia e Ambiente) da USP.

"A situação vem piorando de maneira significativa e a tendência é permanecer nesse ritmo pelo menos até a virada do ano porque as previsões climáticas dão conta que as chuvas vão diminuir na primavera e no verão", diz Cortês.

Segundo o especialista, os atuais níveis estão mais baixos que em 2013, ano anterior da pior crise hídrica da história do estado de São Paulo, de 2014 a 2015. Em 18 de agosto de 2013, o volume total armazenado era de 60,4%, cifra que atualmente é de 45%.

Para Antonio Carlos Zuffo, professor associado de Hidrologia e Gestão dos Recursos Hídricos da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), é difícil dizer se de fato ocorrerá uma nova crise hídrica no estado.

"A tendência de queda do reservatório deve ir até setembro, no máximo até outubro Acredito que ainda estamos em uma situação de alerta, mas não crítica. Logo mais entramos no período úmido e os níveis vão melhorar", afirma.

GOVERNO DEVERIA ALERTAR

A professora doutora Ana Paula Fracalanza, do Procam/USP (Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo) e da Each/USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo), afirma que a Sabesp deveria agir com mais transparência em relação à população e fazer alertas às pessoas para que economizem água.

"Estamos com uma capacidade de reservação menor do que o período pré-crise de 2014 e acredito que nos próximos meses já vamos enfrentar dificuldades de abastecimento nos reservatórios", diz a especialista.

"O governo deveria agir com transparência e anunciar medidas para que a população já começasse a se preparar e visualizar o que já estamos vivenciando uma situação de crise. As medidas não podem ser tomadas mais adiante, pois seria pior", completa.

Para Pedro Luis Côrtes, a Sabesp já deveria reconhecer a crise e anunciar políticas de conscientização para a população. "O ideal é começar a orientar as pessoas e retomar políticas de bônus [por economia de água", afirma.

Ana Paula Fracalanza ainda diz que essa ação precisa ser em conjunto. "O governo precisa agir com a sociedade civil para conter essa situação", ressalta.

OUTRO LADO

O presidente da Sabesp, Benedito Braga, afirmou que atualmente os reservatórios têm uma situação confortável, segundo estudos e análises práticas, e que até o final do ano não está previsto nenhum problema.

"A capacidade de previsão climática é muito difícil, ainda mais pensando em seis meses na frente e a companhia não trabalha com esse tipo de coisa. Hoje temos uma situação confortável", afirma.

"A projeção de 20% é só um estudo de cenário, é teórico porque nenhum especialista sabe o que vai acontecer com a previsão do tempo com exatidão", completa.

Braga diz que o estado de alerta é apenas uma forma acordada entre o governo estadual e a União para determinar a vazão do sistema, mas que na prática isso não interfere na operação da companhia.

"Já há bastante tempo a Sabesp está tirando 23 mil litros por segundo, sendo que no nível normal poderia tirar até 33 mil litros por segundo e no estado de alerta, 27 mil litros por segundo", diz.

Além disso, o executivo destaca as obras que a Sabesp fez para não passar por uma crise hídrica. A principal delas a Interligação Jaguari-Atibainha e o novo Sistema São Lourenço, ambos em operação desde 2018, além da ampliação da interligação entre os sete sistemas.

Atualmente a Sabesp conta com a interligação do rio Itapanhaú, obra para reforçar a segurança hídrica na RMSP, em andamento. A previsão é que a operação comece no fim de 2021, transferindo 400 litros por segundo desse rio para o Sistema Alto Tietê. Até julho de 2022, serão em média 2,0 mil litro por segundo.

Braga diz que já planeja campanhas de conscientização junto à mídia para os próximos dias.


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