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Biden ameaça Putin com sanções e 'outras medidas' se a Ucrânia for invadida


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Biden ameaça Putin com sanções e 'outras medidas' se a Ucrânia for invadida
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Os Estados Unidos ameaçaram a Rússia com novas sanções econômicas e "outras medidas" caso o Kremlin inicie a invasão da Ucrânia que a Casa Branca qualifica de iminente.

O alerta foi feito pelo presidente Joe Biden a seu colega russo, Vladimir Putin, durante uma videoconferência que durou duas horas e cinco minutos nesta terça (7), segundo relatos prévios feitos por assessores da Casa Branca.

"O presidente Biden expressou a profunda preocupação dos EUA e de nossos aliados europeus acerca do aumento de forças da Rússia em torno da Ucrânia, e deixou claro que vão responder com fortes medidas econômicas e outras em caso de uma escalada militar", disse a Casa Branca.

O tom é previsível porque o americano vinha telegrafando suas intenções. Primeiro, vazamentos à imprensa acerca de uma escalada militar russa perto das fronteiras ucranianas. Depois, com confirmações em sequência de que o perigo era real e, parar piorar, quase imediato. Por fim, com o próprio Biden dizendo que deveria preparar retaliações.

As "outras medidas" não foram vocalizadas, embora houvesse especulação acerca de mais apoio militar a Kiev. Na prática, não parece significar muito.

Acerca da impressão de tais colocações sobre Putin, a limitação decorre do fato de que a Rússia já enfrenta sanções desde 2014, quando anexou a Crimeia da Ucrânia e deu corda para que rebeldes separatistas russos étnicos iniciassem uma guerra civil ora congelada no leste do país, tirando o controle efetivo de Kiev sobre a região do Donbass.

Claro, o torniquete sempre pode ser apertado. A agência Bloomberg e outros meios ocidentais especularam que os bancos russos poderiam ficar sem meios de converter seus rublos em dólar. "Isso não faz sentido, e é impossível", respondeu German Gref, um liberal aliado a Putin que dirige o maior banco russo, o Sberbank.

A esta altura, contudo, talvez apenas medidas mais concretas contra a infraestrutura de venda de gás natural russo à Europa, notadamente o novo duto Nord Stream 2, poderiam ter algum efeito dissuasório. Só que aí é preciso combinar com os alemães, que até colocaram a certificação do projeto finalizado em setembro sob suspensão por tecnicidades, mas têm todo o interesse em seu funcionamento.

Restaria a Biden subir o tom de verdade, prometendo apoio militar direto a Kiev em caso de guerra. Até aqui, isso não transpareceu, e é coerente com o histórico do líder. Só que, por toda a valentia que o sempre indeciso presidente tenta mostrar quando lida com Putin, isso significaria arriscar um conflito europeu, talvez global, entre as duas superpotências nucleares.

O americano reafirmou seu comprometimento com a defesa da soberania ucraniana, mas uma coisa é um país da Otan ser atacado, o que obrigaria uma reação dos outros 29 membros da aliança liderada pelos EUA. Outra é Kiev, que gostaria de entrar no clube, sofrer a invasão.

Isso dito, os EUA e outros países europeus têm fornecido crescentemente armas sofisticadas para Kiev, o que gerou acusações do Kremlin de que quem procura o embate é o Ocidente. A retórica dura de Biden contra Putin, a quem já chamou de assassino, também contribui para a desconfiança.

O nó da confusão é a mais recente movimentação militar russa em regiões relativamente próximas à fronteira da Ucrânia. São algo menos de 100 mil homens envolvidos, embora os EUA e a Ucrânia falem que há um plano de invasão coordenada em três frentes com 175 mil soldados.

Não é o suficiente para devastar as forças ucranianas, mas talvez o seja para tomar de vez o Donbass. O problema é que isso, além da supracitada possibilidade de uma guerra apocalíptica, seria extremamente custos: Putin já desembolsou a fundo perdido mais de US$ 5 bilhões em infraestrutura na Crimeia, por exemplo.

Esta é a segunda vez no ano em que Putin mexe suas peças. Em março, ele reagiu ao posicionamento de forças do presidente Volodimir Zelenski perto do Donbass, e após semanas de tensão, retirou suas tropas por considerar a situação estabilizada.

"Nós nunca quisemos atacar ninguém, mas temos nossas preocupações e nossas linhas vermelhas", disse, antes da reunião virtual, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

Por linhas vermelhas entenda-se a integração da Ucrânia ao arcabouço político-militar da Europa, carteirinha de membro da Otan acima de tudo. Geopoliticamente, é algo inaceitável para qualquer líder russo não ter a Ucrânia ao menos como neutra.

Uma olhada no mapa explica: as vastas planícies ucranianas são, assim como o terreno da aliada russa Belarus, estradas para invasões – que ocorreram sucessivamente, nos séculos 18 (suecos), 19 (franceses) e 20 (alemães, duas vezes). É um imperativo do Kremlin manter áreas tampões, como nos tempos dos czares e da União Soviética.

Isso explica a determinação de Putin, além de fatores culturais, dada a origem comum desses três países e a forte presença étnica russa nos dois vizinhos.

Obviamente, o atual governo em Kiev não concorda e quer ser aceito pelo Ocidente. Para o presidente russo, a manutenção do status quo vinha sendo bom negócio, mas os movimentos recentes sugerem que ele quer uma resolução para a instabilidade.

Teoricamente, isso se daria com a implementação dos acordos de Minsk, que na segunda rodada em 2015, com beneplácito de Alemanha e França, estabeleciam uma paz baseada em grande autonomia para os russos étnicos, mas a integridade territorial ucraniana. Kiev não topa.

Putin chegou a pedir, na conversa, para que fosse dada uma garantia de que a Ucrânia não seria aceita na Otan. Não foi bem-sucedido, apesar de na prática a adesão é virtualmente impossível sob as regras atuais, que vedam a entrada de países com conflitos territoriais ativos.

A ser mantido o impasse e o temor ocidental de uma invasão, Putin ganha tempo e pode extrair alguma concessão, já que os EUA estão focados na China desde que deixaram o Afeganistão. Isso, por outro lado, causa apreensão europeia, algo trabalhado por Biden ao ligar para os líderes da Alemanha, Reino Unido e França antes e depois da cúpula.

Há a hipótese de o russo querer de fato resolver a situação à força, apesar de todos os riscos. Ou ao menos parecer crível em seus atos ameaçadores.

"Eu aposto que ele está blefando. Mas não apostaria tudo nisso", escreveu nesta terça o dono da consultoria Geopolitical Futures, George Friedman. Já um analista russo sempre cético sobre as narrativas ocidentais sobe seu país, Ruslan Pukhov, disse por mensagem que "há uma grande chance de guerra, não agora, mas depois".

Isso fora o sempre presente perigo de algum erro. Nesta semana, por exemplo, o destróier americano USS Arleigh Burke está nas águas do mar Negro em exercícios com forças aliadas, inclusive ucranianas. Em resposta, a aviação naval russa na Crimeia fez treinamentos de ataques a navios com bombardeiros Su-24M e caças Su-30SM.

Oficialmente, a cúpula virtual, com o russo em sua casa no resort de Sochi e o americano, na Casa Branca, ao menos serve para tentar distensionar o ambiente. "Nós queremos todos de cabeça fria", disse Peskov, citando outras tensões europeias como da crise dos refugiados na fronteira da Belarus e da Polônia.

Com efeito, as saudações entre Biden e Putin foram bastante cordiais e afáveis, com sorrisos e promessas mútuas de um encontro como o de junho, em Genebra, quando os dois líderes concordaram em discordar em diversas questões. Desde a posse de Biden, em janeiro, eles também se falaram três vezes ao telefone.

No entorno europeu, contudo, as cabeças estão bem quentes, em especial no mais exposto leste ex-comunista. O chanceler letão, Egards Rinkevics, por exemplo, disse que a Otan tem de dar uma resposta dura e rápida caso algo aconteça na Ucrânia. Sob pena, afirmou, de perder seu sentido, "a cola que nos une".


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